sexta-feira, 4 de maio de 2012

Bla des désirs lumineux

Por conta de todo desejo que me corre a vida trespassada em misericórdia, jamais me deixaria sem o dom de volver ao que me circunscreve, passo a passo das carnes e matérias de espírito de que todo sou feito. E creia, que mesmo em face de toda circunspecção, eu não deixaria de dizer ou me fazer nu, declarado, nos contornos da minha face torta, do meu queixo indecente, do meu olhar amarelo, filigranado, do que por dentro se escoa, se ecoa nos vasos mais porosos de minha dilatada usura. Também, calma, a extensão enervada de concisos e atuantes pulsos, na balsa inteira de minha cintura. Na bacia dos meus quadris, pêlos exasperam-se puxados com força, pelas carnes do meu sexo rijo e intumescido de concórdias, diretamente conjugados a tua presença, ao que vem antes do nome, ao teu enevoado e contrito pouso de matérias e quânticas asas, quando sublime, me chegaste aqui. E eu não teria medo, já que o medo, diante de ti, seria espelho diante dos recuos, que me desarvoram muito mais a motricidade do querer e me instigam mais ainda ao desejo de estar, face a face, olho a olho, cara a cara, dessa fímbria doce e jaculosa que um dia, nos compusera homens; jamais, o conceito ortodoxo e atávico de tantos outros homens, familiares, meliantes ou doutores, me fariam recuar diante do que comove e move os meus olhos, a estrela direta e profícua dos sentidos do meu coração batizado por tantos, como anárquico, desesperado, enlouquecido, vermelho e cru. Eu, seria apenas o homem, simples, divisando os signos do teu mistério, sedento, esfomeado, enxovalhado, tresmalhado como ovelha desgarrada para te encontrar, sem nenhuma culpa, sem nenhuma dor, sem nenhuma gosma ensandecida na garganta que atropelasse à hora do dizer, já que meus dedos passeariam pelos teus cabelos, livres, como se libras dessa linguagem calada e de retinas maiores pudessem as plantas dessas mãos tão intencionadas de fúria e decanto, entender passo a passo dos teus desenhos mais ínfimos, mais íntimos, mais secretos, teus buracos, tuas narinas, tua boca, as dobras de tuas coxas grossas, torneadas para a dança nova que teríamos no palco oloroso de alguma cama perfumada. Eu, fumarento, vaporoso e ao mesmo tempo encarnado, de ti, engoliria cada cheiro, cada fragrância, cada calor escondido nas tuas dobras mais juvenis, n’onde a pele se esconde quase virgem! Porque algo pouco tocada, algo pouco lambida, alvo e pouco babada pela boca de suntuosa gruta, pela fruta carnuda de todos os meus pomos e lábios vermelhos. Eu te entenderia em mim, te atenderia em mim, nos meus braços, no meu peito o teu cansaço, eu faria resolvido, ainda que por poucos minutos, algumas horas, como transfusão de energias, nos sopros, nas mordidas, nos carinhos, nos cantares, nos líquidos suarentos, nos beijos, na forma incendiada de te receber, deitando o teu corpo, abençoando “Pietá,” em meu colo de agora homem, mais por ti e contigo, inteiramente igual e menino! E soariam sinos, no alto de nossas cabeças, na periferia inteira desses nossos quartos de usufruto e fastio! E sem a pressa de dar nomes ao que faríamos, ao que teríamos por hora enviesada, numa necessidade de estrada longa, num pacto sublime, para que não fosse somente paixão e nunca houvesse de morrer. Calaríamos, tentando retardar as horas, para escutar os caminhos abertos, tocando ferrenhamente um o corpo do outro, enquanto aspirássemos como duas dragas de boca semi-abertas, de íris completamente ampliadas, um a presença espargida do outro, porque o mundo seria o nosso mundo, seria a particularíssima língua a que sempre nos volvemos e devolvemos num segundo de sempre nossos encontros! E somente nessas terras eu e você, conseguimos entender que palavras idiomáticas são estas que conseguimos falar tão bem, sem que precisemos deixar de ser por um só segundo, a nós mesmos! Sem que haja obrigação alguma ou ordem infeliz de fora, pior ainda de dentro, que nos intercepte a vontade, a amizade, a compreensão e o tamanho de nossos corajosos pequeninos corpos, nunca ermos, diante de desse abismo que é sentir! Eu sentiria por ti um emaranhado de coisas multiplicadas no desassossego das solidões. Eu, que sou de algum modo e ordem, cigano, que passeio pelo mundo e não me calo diante das indignações, brigaria e te abrigaria a mais profunda ponta aguda das minhas hastes, nas tuas cavernas mais secretas! E quando desejasse em ti estar penetrado, “alumbradamente” abraçado por tuas carnes e envolto por teus calores de dentro, desejaria mesmo e fatídico, era tocar teu espírito, deixando ao corpo o valor secundário de me fazer estar mais dentro dos teus hemisférios. E salivaria por horas, as águas tontas de desejo no meu corpo, para dentro do teu corpo. E te diria palavras sem sequer abrir a boca, porque saberia de ti a capacidade imensa de também me dizer disso tudo! Escreveria com a tinta desse verniz que baba a ponta doce do meu pau, por todo o teu corpo, as poesias mais lindas e vorazes, as palavras mais cativantes e libertas de desejo, a minha língua dançaria luminosa e cortês no interior da sua boca com um plâncton luminoso, sentindo o frio do caucásio dos teus dentes, o cálcio morno dessas pérolas plantadas na tua mandíbula, espetacularmente perversa e sábia das mordidas certas, das sucções mais profundas, dos intervalos mais cheios de tempo e prazer peremptório! E nesse ostensório sacrossanto e pagão de muitas luzes e sóis, que são os olhos sentidos quando luz e brilho, eu te abrasaria mergulhando antropofagicamente adentro e para sempre me misturaria na corrente boa do teu sangue que bombeia e faz encher as balsas da tua ereção, eu me faria uma canção, doce, para as horas do teu vogar, do teu vagar, nas tuas trilhas de desassossego, eu te ampararia nos meus braços com a força dos meus músculos frágeis, mas cheios de calor. E diante de mim, quando tu tivesses de pé, arrancaria a roupa, como se a primeira vez despido, oferecendo cada penugem das minhas estruturas, para depois enxergar como se infante diante da descoberta mais genuína de um pássaro diante do sol, a tua estrutura toda de arrimo e doçura, de rigor e feitura, assistindo a tua nudez, para beijar, fremir e gemer, sussurrando a temperatura quente toda da minha boca, meu interior, desde os teus pés, a tua panturrilha, teus joelhos, as tuas pernas todas, a maravilha do seu sexo perfumado, teus colhões, tuas nádegas abraçaria, enquanto do meu tronco os teus princípios sentissem o meu sexo quente, arrastando-se como se numa via pascal, até que eu seguisse ao teu umbigo, tua barriga, todo o teu tronco, teus mamilos chuparia, sorveria, com ósculos molhados e cuidados, cheios do intenso fogo que me governa desde o princípio, desde a gênese de minha aparição, saudaria também com alegria teus braços, até encontrar com força o encaixe sazonal de nossas mãos, deitando primeiro a cabeça pendida nos teus ombros, para na tua cabeça alcançar tua altura, tua sanidade e loucura e depois me fazer em ti como um só beijo, uno, lagrimal de solfejos e agridoces águas bebidas na caldeira de tua boca. Teu nariz, ponte agudando os desejos te fuçar como se fosse bicho, a luz clara e sombreada de nossos intervalos no abraço, agora mais desnudo, que eu sentiria profundo, até que por fim, como se do meus precipícios e inteiriço de minhas entranhas, fecharia tuas mãos no meu sexo, assim como também com minhas plantas quiromânticas,contornaria tão bem o teu sexo, até senti-lo pulsar junto com o meu! E assim, ressurgindo natividade, deixaria, de verdade, que uma cascata do leite mais poroso e grosso fosse chorada até o alto de nossas aréolas, pela ponta mais que deposta de nossas vergas, pulsantes, acumuladas, felizes desse emaranhado de sentidos para depois dizer, colado, insofismavelmente lambuzado, acometido e torto desses prazeres que sinto ainda agora, quando aqui, descarnado a te fazer em mim, palavras sussurradas num sem fim, nos lóbulos das tuas orelhas eu diria, na concha confusa dos teus ouvidos, que por tudo eu friso, que por tudo eu riso, eu choro, eu vivo estarei aqui para este encontro, para te saber! E porque eu gosto do teu gosto, da nossa infinita e etérea ponte que se fez até aqui, que eu me farei fecundo e por demais feliz, jucundo, atrevido, cavalo de crinas soltas e livres, ainda, voarei até o teu sorrir. O Pornógrafo

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Le paradis des oiseaux muets




Abrir a tua boca, puxar de dentro do curral do dentes a língua, agarrar a língua, esticar a língua de dentro para fora do interior do céu do palato, tentando violentamente descobrir com as ranhuras dos dedos, com o macio das digitais, as palavras que guardadas, perdidas, encruam ou viram quem sabe dissabores no inferno dessas indigestões. Condenar mais a tua boca do que já condenas; isso eu não faria! Eu não fui nascido e criado homem desses feitos, dessas falsas misericórdias pedidas ao reverso das ações fugazes, adestradas.
Passeias pelo mundo, julgando que do mundo as vistas mais atentas nunca te virão, nunca te verão, nunca te enxergarão deflagrando os nós da tua garganta visitada, quando de joelhos, golfas, até o sumo das gosmas mais interiores, numa busca fascinante e dormente de prazeres vorazes, antropofagicamente permitidos, na hora bebida das correntes de álcool, em que manejas o talo das flores mais duras, intumescidas, até os limites da garganta, neste flagelo oral de penetrações nos buracos da fala, em que somente calas e ages, subindo como ondas para afogado até a superfície. Porém marginal, achando que o teto te encobre de Deus, quando ele participa da tua vontade, te pedindo exatamente fala e atenção nessas horas de visitação das cavernas do além amigdalas. Calas a boca, cobres a boca, rangendo os dentes por rancor a estas fendas. E o mundo te grita, te grita, te grita insistentemente nos ouvidos, o pó feito de silêncio e mar, de ruídos e roídos elaborados planos que nunca se somam carne de alma e em ti, somente cansaço, luta injusta, inócua? O que de ti por esta tanta preservação, a pele limpa, os dentes limpos, o asseio dos pêlos arrumados, a veste insinuando decisão e por dentro, a ordem mais profícua e proliferada de danos pavorosamente mais crescentes e enganosos.

Cansar de ti...
Cansar de ti será quem sabe deixar que tu morras engasgado nas pirocas profiláticas que chupas, para depois cuspires, porque nelas faltava a ponta consagrada da alma, que te coloriria de joelhos em benção rendida, de atenção e beleza, enquanto o simples dorme desassossegado dentro das tuas caixas de vocais, condenadas palavras nunca nascidas, nunca nem sequer assumidas no papel.
E o fel que destilas nas tuas infelizes correrias para o quarto dos protegidos, misturas nas comidas, nas palavras do trabalho, nos tediosos compromissos de falar a quem te solicita em hora alumbrada de boa subsistência social. Na aventura performática do teu pau, quando tens saudades apenas, das mãos que tocadas, que já te traziam a beleza do sexo, que uma hora descoberto jamais, será esquecido, ainda que teus gritos mudos e tua exigência!
Temperança para as tuas pernas, para o teu estômago o prazer desigual dos porcos, eu amo os porcos diante da tua anestesiada concepção de ingestão!

Dobrada a palavra, desvirada e rasgada no ar das andorinhas, quem sabe perfumes mais doces não pousariam nas minhas narinas pedindo entrança, quem sabe não dança teu corpo solto no ar novamente, no passeio de caminhos sorridentes até chegar a mim, até o meu abraço, até o meu peito, até o meu jeito mudando o tom, como o tempo jungindo cores e flores nas horas próprias e particulares do dia? Boreal, eu te diria nada além de apertar tuas carnes nas esperanças maiores do espírito. Sazonal, me fumegaria, poro a poro, das listras corridas de pele do teu pescoço, da tua nuca. E arqueada a boca numa concha profundamente patética e ancestral, mamaria os teus lábios como se novamente, primeiro. Naturalmente infante e magistral, sorveria a tua baba, a tua boca, o choque lancinante e elétrico dos teus dentes e perene, me deixaria todo envolver na compreensão, daquilo que é dito apenas nas impermanentes horas da vida. Porque mesmo de dentes trincados, de nada me valeria o segrego, pois meus olhos sempre gritam!

Dizer que não dizer é vantagem, para um homem que flutua, que dança, que passeia pelo escuro da casa e não tem medo de trombar com os móveis norteados ao bem do horizonte, seria redundante. Talvez fosse alguma forma circunscrita de apenas respeitar a tua concepção de silêncio, porque eu, não tenho medo de perder a voz porque me restaria a carranca. Eu ouço as paredes, eu ouço os objetos todos da casa e com eles converso sem que ao menos precise me abraçar à loucura branca dos normais. Eu chego a casa e tudo me fala, tudo me cala na hora de gritar para que possa me ouvir. Existe diálogo efetivo entre nós, nos espaços e vãos dessa convivência, dessa conveniência de estarmos juntos e corroborados em segredo, em respeito e amplidão dos nossos quereres, nossos atos, nossos seres tão amplamente dispersos e contritos, numa comunhão abstrata e constante, quando queremos saber um do outro nessa solidão. Nenhum menino que me tenha arrastado os pés nos carpetes da casa, fora imune das elegias e alegrias soturnas dessa construção. A casa me compreende para eu que eu possa nela morar.
Lembro amplamente de cada rosto que por ela adentrou, cada corpo adentrado também por mim, com as expansivas noções dessa compreensão que tenho toda do meu corpo. Já esporrei nas paredes, abrindo os braços e colando os mamilos na tinta descascada, para que ela pudesse me entender, aceitando, generosa a doação do perfume perpetrado dessas tantas companhias e que têm sozinhas, o seu destino. E isso me comove! Isso me faz certo de que estou pleno de silêncio, vozerio e solidão. Não tenho medo da solidão, ela é quem me faz saber ter calma, para enxergar que parte do corpo alheio precisa ser tocada, que fenda precisa ser lambida, que orifícios mornos precisam ser molhados, que suspensão necessita altear de mim mesmo, para que o peso dos meus ossos, nunca sufoque as carnes, as minhas carnes e as carnes que animam o corpo que vem.
Vou por aí nesse trem de idiossincrasias e sofismadas imagens, vultos nevoentos do teu tempo, para dizer que quando te encontrei, nada mais em mim desejava o teu medo e por isso talvez, o degelo desse teu insuportável cansaço de tentar fugir ao que talvez, nem seja mais nosso, nem seja mais para tanto. Os canais secaram as lágrimas nas bordas dos olhos, a garganta secou, dando lucidez aos teus passos trêmulos e eu, não me emocionei com mais nada. Os teus olhos estranhamente vermelhos de um choro que eu não via, me revoltavam muito mais fazendo do meu corpo porta batida, na tua cara, ferida dos gessos e carmins desse século, do que a compreensão batismal de paternidades sutis por mim outrora ensaiadas. Eu não seria teu pai, eu nunca tive a pretensão de ser teu pai, mesmo entendendo as imbecis projeções a que somos sujeitados, segundo a falida concepção freudiana. Éramos apenas dois, dois homens jogados ao sulco espremido dessa laranja seca, que apenas conservava no fim dessas usuras, a tontura do pêndulo ao chão, a secura da razão das pedras tentando brilhar seus lindos olhos de cor após as pancadas. E nisso não haveria amor?... Não haveria quem sabe a chance de descobertas? E quanto será que sofre o pássaro na muda a espera das novas penas? Se era de sofrimento e paixão o teu medo, diante de minha cara seca, era melhor que volvêssemos as nossas casas e depois de nada forçar o tempo dos ponteiros eflúvios, também não exigir nada do corpo, lancinando o mesmo peso de carne à cama, para esperar, quem sabe, que algum nervo contrito, nos dissesse tão descomprometidamente por onde deveríamos começar a nossa palavração, suspiro primeiro da alma. Ou deixar apenas morrer, na migração fantasiosa e ridícula de imaginados pássaros voando para um céu sem fim, alguma coisa que não fosse coisa, que não tivesse nenhuma obrigação ser ruído e sim apenas silêncio.

O Pornógrafo

sexta-feira, 9 de março de 2012

La fête de la fin du monde





Por onde há ardor e cansaço, atento os meus braços a chegada deste afago que seja puro vento e companhia. D’onde me viste de longe, elegia. Visão prurida de impedimentos e tormentosas fantasias para as quais batizaste por teu nome, teu rigor, tua destreza diante do espelho, tua esculpida tabela de números e resultados, costela a costela, braço a braço, perna a perna, orelha a orelha e surdez. Emudecido, nem sempre te impedes umedecido. Nem sempre não floreiam teus verbos e dissabores no cansaço do que nem ainda começaste. Embevecido de cólera, cerveja e medo, enquanto eu sou vinho e decantado, enquanto eu sou vivo e depravado, tu morres empedernido e contrito, cada vez mais encolhido dentro. Não há mais lugar para palavra, só existe cansaço, só existe a ausência. Só existe o verão, a primavera, o outono, o inverno, o verão, a primavera, o outono, o verão, inverno... não existe uma estação n’onde nos encontremos, não existe presente guardado com carinho, não existe carinho, só existe cansaço. Só existe o espaço esperando para habitar. E dos teus hábitos, trejeitos frágeis e desavisados de um menino que se julga em pleno vigor, quando nem cortado ao meio, ainda, o tempo de vida, somente ferida escondida com arrimo e sabedoria?, por uma camada bem aplicada do pó dos rostos das moças de trabalho fiel. E tu és fiel, mas em ti não há trabalho, não há nem sequer, agora, um pequeno tecido roto que seja dos grelos dessas moças, tão mamados, tão chupados, tão exasperados por bigodes fedorentos, fumarentos, esfomeados, quando por elas e soberanamente delas, o dom divino de elevar a fronte e divisar, na beleza das lâmpadas a maravilha dos lustres quebrados, enquanto ainda, do alto de seus poderes ancestrais, jamais pudores clericais, são capazes de gozar a boca e o beiço todo do infeliz que as pensar consumir. Quando do alto de suas almas e espíritos, extasiando e ungindo, apenas para um pequeno deus, nas lembranças dos filhos, dos trilhos, das correrias trespassadas do pretérito enfermiço de suas infâncias intocadas. E estar ali, oferecendo a boca e a fenda dessas rosas de olores perigosos, jamais as distanciariam sequer, de enxergarem amor. É porque tu temes tanto de amor, que tudo em ti é capaz de simular absolutamente nada! Teus joelhos te condenam, tuas mãos suarentas, teus olhos crispando entorno das pupilas brilhos mortos te condenam, vermelhos de chorar um choro futuro, que só desabará da garganta quando estiveres trancado e trincado entre as pernas, nos quatro cantos do teu quarto ou banheiro e escondido! E redargüido, e falsamente exposto no teu troninho de verdades absolutamente corajosas, porque apregoam tuas decisões. Tu és rapaz resoluto, e por luto, a falta de orgasmos supostos, de tua própria mãe, tu também hás de permanecer incólume, irrestrito, inconsumível, edificado, adestrado( não tivesses dos animais visão inferior),consternado e feliz, feliz, feliz, nos teus passeios pelas praças, todo vestidinho de modas e cabelos arrumados ao bem do século e da década ocupada pelos sãos.
Eu pedirei uma brisa ao tempo, para que tu não sufoques, não engasgues, não tenhas esmagados os nós da garganta, já que eu sei, que não és de palavra e eu, sou lufada, sou gozo contínuo, hemorragia para o teu pinga- pinga controlador de sangue. Controle então o rubor da tua face, controle os teus intestinais solfejos de loucura, controle as tuas ereções por dentro das tuas calças ajustadas, o teu cabelo que nunca se arruma porque o vento sopra livre e tão livre, que teu grito jamais o coibiria! Jamais tua tempestadezinha de merda, seria capaz de desvantajar a soltura do tempo! Controle o tempo, diga a ele, grite ordens ao tempo e diga a esta dor, que, inalterada e intacta, provavelmente te comerá as melhores horas da vida, até a tua velhice, numa angústia profunda e sem dentes. Sem o caucásio bom das tuas presas curtas de morder, sem as tuas contemplativas vistas tão apaixonantes. Porque de ti, sempre amei a tua desobediência a si mesmo, os teus planos falidos, as tuas sucessivas tentativas de ser, quando existindo perifericamente, nem te davas contas, das maravilhas que és, sem o teu tanto “domínio”, ponderado e enviesado e ajustado em sacramento. E em detrimento destas ranhuras ancestrais, que me insistem em conjurar e conjugar ao teu tempo, num espaço comum de quem tem ouvidos aos mortos, que gritam insistentemente que não existem verdades que sejam jamais escondidas, quando nasceram para passearem nuas, no chão da pele aturdida, exercida, ferida, plenilúnia e clara, como viela de porosos embates e paixões que nos fizeram descer ao mundo, tivesse eu esta noção cristã de lateralidades!
Sei de Deus nos braços dos outros, nos pêlos exasperados, nas feridas cauterizando cicatrização, nas horas sem contagem de um tempo manso, macio e motriz. Sei do que é desenhado com o giz divino, desse mesmo deus, apenas do contorno intumescido dos teus pequeninos mamilos, que ainda lembro, fui o primeiro a chupar, a lamber, procurar o bico, como se eu fora criança grande devassadora, o primeiro gole de bebida agridoce e cheia de veneno e álcool profundos, o primeiro baque entre as carnes das tuas coxas, o primeiro desaviso mais violento da planta certa dos teus pés, como se ainda bramindo nas partes do corpo as fúrias do mar, quando saímos correndo para o chão das areias agora fofas. E creia! Não desejo para ti, nada que não seja de desejo e comunhão, não tenho a pretensão de ser risco para os teus planos, para tua obra, para o teu sucesso, para a tua vida organizada, escalonada pelo toco do teu lápis sempre, cuidadosamente, laminado até o agudo da ponta, para que te reste sempre até o fim a promessa da palavra na hora por ti, esculpida na temperança. Não devolvo rancor, estupor, maldição ou desesperança, muito menos que te morra a criança, mas que também jamais te deixe de nascer o velho e toda a sua dignidade. Foi porque andei até aqui, que sei do que falo e exatamente porque lograste sozinho, o que é só teu, que nesta hora, eu, pornograficamente insano, anárquico, nevrálgico e caligrafado, me permito no que é palavra para trágico e fabuloso, não te pretender voltar a dizer. E que porque meu corpo tão bem tem ouvidos, conchas acústicas, bocetas sonoras e úteros profundos, eu calcifique por toda e qualquer boa necessidade de regenerada perquirição, degenerada e esporeada dor de seguir mundo e chão, jamais trotar como cavalo em fuga, seguir os caminhos infinitos do mundo, te deixando a hora e a própria cara estampada no espelho, o teu próprio julgamento que já o são por demais sumarentos, para que os possa repetir ou fazer coro. Seja realmente feliz, mas não seja escravo das pracinhas.

O Pornógrafo

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Une fête de viande tiède à Blanchot




Atravesso a porta, miro o espelho e digo: __Escarnece meu delírio!
Junge minhas dores e unge minhas feridas com a tua saliva!
Por favor!

...


Veludo roxo, de puta, de monge, de palhaço, de meretrício e de partes. Sagradas, sangradas, bandidas, banidas, marginais como um jato de boa água branca, cuspe e sangue, de dentro do corpo, mangue. Mangando de todos nós, mistérios jamais alcançados, sem sequer nosso corpo visitado, sentido, inspirado, aspirado, chamuscado, fuçado, cheirado! E de nós boa fúria e pestilenta piedade!
Festa aos marginais, as estrelas tontas do céu, as vertigens da abóbada da boca, quando vociferado, rosnado, cuspido ou babado teus nomes, tuas múltiplas e “ventanosas” formas de ser. Ilusoriamente se formando, quando tudo que mais desejamos, de desejo bicho, desejo esguicho, de libido, é somente a mistura no líquido bom que nos consome, regenera, mata a sede, a fome e tantas outras vontades não codificadas no nome.

Felpudo recosto da cadeira de deitar os pés até o chão desarrumado dos tapetes, abrindo com a fúria de quem rasga a braguilha da própria calça e devora com os olhos das plantas das mãos, o bolo de carne alongado no chão da virilha de homem, que na hora exasperada, eu sei, que sou para mim mesmo.
Deixar que nada a volta me atrapalhe, nem os ruídos dos pássaros, nem a loucura dos cães, excitados e libertos como eu em comunhão, pelas matas todas do envolta de casa e assim, num respiro profundo, profuso, desassossegado, tatear repetidas vezes a mesma oração nervosa, da repetição bendita do teu nome, que perdido na essência do que precede, não precisa da letra “fonada”, que sai pela fenda da garganta e esvoaça a pessoa. Eu desejo a pessoa, eu rumino a pessoa, eu esfrego a pessoa nos vãos torneados das minhas coxas, doridas, de tanto andar. Músculos pelas ruas, com pressa de encontrar outras gentes e vibrando pelo insucesso, para lograr a chegada quase arrombada da própria porta de casa e por fim constatar que a tua falta é o que mais alimenta, é o que mais me consome. E todo, homem?, espichando os dedos até o fim dos limites na mesma cadeira, perfurando com as pontas dos dedos os buracos da boca, das narinas da face, dos ouvidos das dobras da costela, das bocas entreabertas sedentas de nervo e razão, concomitando e rangendo loucura entre os dentes, da língua aguando e cuspindo a ilusão das primeiras secreções.
E eis que ainda, querendo não divisar o final dessa procela, vou me dando às delícias e mais dedicadas funções de me fazer fractal e sacrário, dividido e perecido parte a parte corroborada, bombeando com as plantas macias e profundamente quiromânticas, os enervados altos pomos de veias dos próprios contornos do meu sexo; admirando dele a cabeça, a fenda, o olor, o rosáceo, os pêlos, o conforto, os prenúncios de arqueada canção com a mente, os meus grãos, meus testículos, sementes, querendo do alto da testa a passagem pelo coração até a conclusão das veredas que, ele, meu pau, todo cardíaco, enfarta, enfeita, despende, ensangüenta, sedenta, amamenta, compensa, rasga, deleita, esporrando pensamento e cansaço, num pasto imenso e vasto de floradas conspirações no meu próprio peito.
Eu gozo até a altura do meu peito e lambendo lentamente do mamilo a minha própria gosma, eu descubro que o meu sexo nunca esteve disperso do meu coração.

O Pornógrafo

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Délicatesse





Aturdido, eu sei que vi o garoto descendo pela janela do próprio quarto, não suportando mais nada do que existia dentro do quarto, dentro da casa, dentro do pardieiro n’onde vivia com o pai e com a mãe. Isso eu pensei quando passava de bonde perto daquele lugar. Mas que rapidamente saltei no próximo ponto, próxima estrada, esquina com a mansão vermelha que contrastava inteira com as casas daquele bairro, daquele barrio de marginais, daquele lugar. Eu, que sempre fui dominado pela vontade de vagar, vagabundo, buscava vagabundos, amava os vagabundos, os moribundos, também como amava os bêbados e os certinhos, os fugitivos de casa, não me trespassariam os olhos sem curiosa visão de poesia, sem vontade de saber, de ganhar. Voltei duas estradas atrás e ainda tive tempo de topar de frente com a cara lavada de sangue do rapaz. Era sangue mesmo, não era tinta vermelha de festim ou fantasia. Ele tentou me desviar, mas indolente eu, muito mais do que ele, não deixei que ele atravessasse o meu caminho, tomando cuidado para que não pisoteasse as minhas botas lustradas, agora filigranadas por leve manta de poeira de estradas. Ele bufou feito um touro pequenino, um animal acuado é mais feroz quando tem seu passo impedido, e eu o impedi, até que ele estourasse. Estourou numa palavra suja e eu ri. Não dei gargalhada que o constrangesse, apenas sorri para que ele sentisse, sem ter a pretensão ensaiada de para que ele, o meu melhor sorriso, nascido eu confesso, de uma compaixão e misturada toda, num boníssimo e incômodo reconhecimento de mim. E naquela hora eu o desejei.


__Está rindo da minha cara?_resfolega ainda possesso cuspindo a saliva de sua boca nervosa.__Se não vai fazer nada, então saia da minha frente, imbecil!
__Imbecil é você, que não percebe que estou te sorrindo!__Era de toda esta compostura de bilionésimos segundos que meu composto era todo feito.
__Está me sorrindo porque então? Guarde teus dentes de puro branco e caucásio_ele sábia falar!_ para se arreganhar a outro puto, porque eu não estou para brincadeiras!
__Reparou nos meus dentes é? Gostou da arcada do meu sorriso, então?
__Gosto de quebrá-los também se for preciso!
__Tente! Faça o mesmo que você acabou de fazer em casa, depois fuja para que eu não chame a polícia, mas ah! Melhor, não fuja novamente, não corra novamente, porque eu não chamo polícia, eu odeio polícia! Eu mesmo quebro a tua cara até você chorar ou pedir mais!

Bastou de pouco para que eu pudesse entender que os olhos dele se enchiam. Era de um mar francês que eu lembrava, dos mares da costa, meio cinzas, eram muito longe azuis, mas diafanamente cinzentos, o menino era de rara beleza maltratada.
Recuei meu passo, estratégico, nunca senhor absoluto de mim e ele me chamou para que voltasse.


__Me desculpe!
__Não me peça, quem disse que você precisa de perdão? Eu disse alguma coisa? Só não te deixei passar dragando teu caminho e te sorri, porque te achei bonito o estado, o sorriso.
__Mas eu não sorri, eu nem mostrei um dente da boca, o senhor me viu machucado.
__Mas sorriu liberdade quando pulou da janela e resfolegava os planos de para onde iria agora, depois que mandou os pais irem tomar no cú.

O peito dele suspirou tão alto feito o mesmo mar francês.

__Então, por favor, me leve para tomar alguma coisa, que o dinheiro que eu tenho é pouco e eu não sei para onde, ainda, posso ir.


Dolente e levemente arqueado eu via na tontura das palavras dele, um pedido de prazer, que viesse depois do socorro. E para quem quer me julgar, julgue, não sou de devorar desesperados. Devolvida a consciência do que sofre, o pedido quase sempre, parte deles, em si mesmos. E não, eu não sou irresistível, irresistível é a vida quando se apresenta nua, sem modelos ou condenações.


__Levo para onde quiser, mas antes limpe o sangue dessa ferida que desce da tua sobrancelha. Não sou assistente social, não sou acolhedor de menores....
__Eu não sou menor!
__Eu sei, deixa eu terminar? ... E só estou aqui parado diante de você, porque me chamou atenção! Mas também não estou aqui dizendo que você é igual a mim.
__Eu sou igual a você! Qual a diferença, porque estou sujo e espancado? Porque você tem dinheiro para me pagar um conhaque, para comer tuas putas e...
__Putos. Eu gosto do que me comover!
__Eu te comovo?


Não respondi e joguei como uma faca circense sobre o peito dele o meu lenço de algodão, enquanto ele o tomava com a destreza atenta dos que estão presentes e vívidos no aqui.

Resolvi que não era melhor estar passeando com ele naquele arredor, que era por cuidado maior, parar um carro e pedir que nos conduzisse a um lugar. Escolhi um hotel, porque ele precisava de um banho, de comida, ele precisava falar e quem sabe gritar, urrar seus gritos em lugar de descrição.
Paguei o hotel mais caro, pedi para que trouxessem roupas limpas e o deixei ir ao banho, sem ter vontade nenhuma de vê-lo despido, de admirar as supostas belezas do seu corpo, o interesse nem sempre nasce desses facilitadores em mim. Ele demorou no banho, fez o vapor invadir o quarto porque, não sendo mocinho de casa “ensaiada”, fez questão de deixar a porta aberta, caso eu quisesse entrar e começar algo que só começaria, se eu enxergasse autonomia depois de toda aquela minha vantajada e suspeitosa delicadeza.

Quem me saía do banho era outro rapaz, do que eu já havia visto dentro do mesmo rapaz, mais calmo, embora o cenho fechado ainda deflagrasse as torturas de que ainda era vitima dentro de si, dentro dos recônditos quartos sempre resguardados de sua doçura. Sim! Porque havia doçura nos traços de sua beleza, uma forte cara de quase homem, agora vestido nos pijamas do hotel, um ferimento que não parecia grande coisa n’altura do que lhe compunha a paisagem dos olhos e uma fragrância de macho, recém saída da adolescência, atravessado pelas flores do sabonete floral do quarto de banhos, nem tão bem decorado assim.


__Você quer comer alguma coisa?
__O que o senhor quiser que eu coma, eu como!


Nem respondi! Silenciei simulando desentendimento para a sua falta de cuidado, na tentativa de se mostrar solícito, embora como resultado, vulgaridade e desserviço.

__Desculpe.
__Por quê?
__Eu estou me adiantando diante dos teus gostos.
__Está sim, mas meu gosto não é nunca foi parado. Você vive disso?
__De quê?
__De oferecer teu corpo em troca de cuidados na hora do desespero?
__Não senhor.
__Não me chame de senhor! Não há necessidade, já disse que não sou assistente soci.....
__Eu já sei, eu já sei, perdão!... Antes de comer alguma coisa eu posso tomar um conhaque? Minha ferida está doendo_ se aproximou bem rente a mim_ e dizem que o álcool anestesia as dores dos ferimentos.
__Não se preocupe, eu vou deixar um dinheiro para que você passe numa farmácia e compre algumas coisas para tratar disso aí!


Durante alguns segundos, isso me bastava, eu tive a nítida sensação de saber que eu era capaz de amar àquele rapaz e eu não evitaria, porque dada a minha natureza nada platônica, também contornos de afeto nas silhuetas dele. Chamei pelo telefone o serviço de quarto e pedi para que eles me trouxessem uma garrafa de bom conhaque e algo para comer, que não consigo lembrar agora, porque eu não disse, mas isto me aconteceu já faz muito tempo, e no dia de hoje eu precisava dizer. Contar apenas.

Seu nome, não revelarei, porque não o repito nem para mim, desde o momento em que decidi que meu corpo seria relicário para o corpo dele e o dele também seria para o meu.
Conversamos durante horas, enquanto ele bebia, sorvendo da garrafa, sem nenhuma tontura maior que o depusesse desenfreio pelo alto grau etílico.
No quarto, algo de uma alegria maior se instalara nos papéis de paredes, com borboletas e gravuras de ramos que me lembravam eras. No fundo de tanto estômago e dor e marginalidades divididas, quem teve fome fui eu e sendo o primeiro a comer com as mãos, feito um andrajo comum, sem os sapatos, apenas com as roupas de baixo, porque não havia pudor no poder das minhas palavras, soltas em bandos como pássaros sempre arrulhantes e piolhentos, eu que jamais me detinha, estava livre e igual ali. Me contou toda a sua estória, era de família quase rica, tinha quase os mesmos gostos que eu, os mesmos rostos que eu, semelhando doçura e bravura e loucura nas galopadas estórias de como conhecera o mundo e de porquê, naquela tarde, resolvera se lançar depois de ter sido agredido pelo pai, pela janela de sua própria casa. E perguntei, por que, não me contive:

__E por que não pela porta da frente, se você diz que foi expulso e não te impediriam?
__Porque a janela, na estória de todas as casas, mesmo mostrando belezas quando olhamos por ela, para mim sempre representou a chance da saída e porque para mim ela, marginal.

Achei tão lindo, tão intenso e sincero que sozinhos, juntos, sem nenhum comando maior que a nossa própria vontade e nossos paus que já estavam duros, rijos, latejantes, encantados pela presença plena um do outro, nos beijamos. E de como fora o sexo, não sei nem dizer, porque os meus buracos eram as entradas da casa dele e os dele eram os precipícios para desejos meus.
E me lançando de esquecimentos maiores que me depusessem qualquer fraqueza ou necessidade de jogo, ali, naquele dia inteiro, eu amei a uma pessoa que conheci para todo o sempre e que me conhecera para assim também. Gozamos e bebemos das águas mais jaculosas e profundas, comemos e mordemos das carnes mais sãs e moribundas, numa antropofagia moderna de pessoas antigas, ermas, irmãs, iguais, ancestralizadas pelo bravio córrego de um Deus fedorento e por isso mais belo e resfolegante, subversivo, submundo, feito de todo uma abertura sem dor, que poucos conhecem, para tempos depois por medo do abismo ou consciência do abismo, quem sabe, guardar! Temos medo de Deus? Temos medo da liberdade que ele representa e o inventamos qual um mito profícuo e nada jucundo, nada alegre, nada livre, para justificar nossos medos mais ínfimos de toda soltura.

O convenci para que voltasse para casa, que entrasse pela porta da frente, mesmo amando as janelas, por onde sempre, ele poderia sair para me encontrar, e o fez durante anos, durante toda a vida! E ainda, que decidisse lá, sozinho, o que era melhor fazer da sua estória, dos seus mistérios, das suas margens, das suas decisões. Quem sabe ali não decidimos? Exatamente por nos termos vistos, tão nus e quem sabe espelhados, n’alguma aturdida diferença. E mesmo estando geográfica e completamente distintas nossas futuras horas e direções, sempre fazíamos uma ponte para nos encontrar. Ele, fugindo pela janela, da sua nova casa, das suas muitas casas e eu, sempre querendo saltar de um bonde, numa quem sabe tarde alarida, para o encontrar. Refazendo a mesma sensação, sempre primeira do dia em que sangrando eu vi nos olhos de um moleque, o amor que jamais se abateria. E jamais se abateu.


O pornógrafo

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

La lune dans les oreilles






Tomado pela lua, pelas ruas, ele caminhou até a sua casa. Do outro lado das cidades, dos rios, dos veios e trilhos que cortavam ainda a cidade ladeada de matas, cascatas de flores recém orvalhadas, envernizadas pelo gozo fino da noite, apressava seus passos para chegar até a cama, n’onde pousaria seu corpo branco de cera alva e de carregadas inquietações altaneiras, poética juvenil de moços. Deitar seu corpo vestido de nu, do preto, negro, “noir”, dos sutis cuidados de dormir, sentir da ponta dos pés até os revés dos lóbulos das orelhas, vontade sublime e sazonal de ouvir, nos abismos dos ouvidos, a voz do outro, desconhecido.
Coroar e corar com licores bentos a boca e porta da boca do seu sexo, com venturas desiguais, ancestrais, divinais, reconhecidas, desconhecendo todo o curso e o percurso feito no feitio de até então, para apenas deixar que sofismadas ainda vontades, cobrissem de lençóis de gases, ventos subliminares, delicadíssimas teias, forrassem seu corpo, num coro silencioso e intrigante de palavras entre cobertas de pureza e do extrato do pólen colhido das flores, reunindo num só ramalhete nas mãos, o caule duro e teso do próprio pau como se também fosse o pau do outro, o deixando apenas latejar como as fluências de um cio mudo e ao mesmo tempo ruidoso.

Dei para ti, nesta noite de timbradas colorações de prata, o licor desses venenos esporrados com a ponta grossa do meu carinho. Ofertei com sabedoria calada de intuições que só um homem híbrido como eu, farto de ranhuras e cansado de tantos desenganos, a minha pureza já não mais alcançada, lançando hora de escambo e troca, permitindo de mim ser novamente criança.
Pude então perceber que falando da mesma língua, tanto ele quanto eu, desejávamos a mesma língua, a que exaspera com percursos molhados e pontiagudos, o contorno inteiriço das pernas, as cavernas da boca, dos buracos do corpo. Não nos faltava razão, pelo avesso, insistente ela nos procurava em busca de justificativas, solfejando nos nossos intervalos, porquês. E para ele eu desejava dizer que nem sempre existem porquês a serem perseguidos e procurados. Quando o pessegado pomo de nossas bochechas riem sozinhas, quando as nossas linhas mais fortes de expressão da face, apenas querem cerzir das tensões, novo tecido, novo motivo, é preciso deixar e apenas ser. E fomos, por horas intermináveis, que não queríamos fim daquela noite que nunca trespassava alvorada. Não era noite do sol, apenas que nos queimasse o colchão generoso, mas era a noite toda da lua para as penas e pernas entre abertas da tarefa de deixar que o fruto em definitivo se aleitasse, se deleitasse e depois esperasse o outro dia. Não para incertezas, não para abandonos, não para os séculos de insegurança, muito menos ou contrário, não era para “carpe diem”, era para abrir a estrada, descampar o caminho e deixar seguir, com o cumprimento de beijos profundos, sem fim...


O pornógrafo

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Le miroir que Alice a pas




Quando o sol nasceu e eu já estava deitado em minha cama, despojando tudo que me sobrepujava de pesos, ainda assim meu corpo cansado de idéias, pesarosos pomos de frutas que me enfastiavam, pesando sobremaneira o estômago aflito das emoções, pensei em levantar do jeito que estava, caminhar até o lavatório rosado e vomitar.
Vomitaria sem medo de esgoelar os anéis curtidos da garganta as águas todas, tolas, que de mim insistissem em permanecer, estar, como verbo apenas de passagem, que não liga, que não move, que não acrescenta, que não levanta vôos e nem alça lençóis para velejo. E o que vejo, é que este homem assim como eu sou, também tem suas usuras, suas tonturas, seus perdidos pontos de eixo, mas não costuma tanto falar, pelo menos no tom lagrimoso dos pastoris, dos cantores de outrora castrados. Não sou castrado! Nada me castra! Meus colhões são, sobretudo, mornos e quando esquenta a cabeça em conjunção maior com a lua, torrentes pêlos de aloirados vermelhos o queimam e fazem doer, a boa dor do gozo. Sempre gozo, mesmo que acometido de alguma dor.
Vi de mim, do mesmo alto desta cama, o corpo jogado, num abandono, que não pretendo classificar se bom ou mau, porque não sou filho das igrejas e muito menos dos ortodoxos conceitos desses julgamentos. Apenas me vi e me constatei.
A casa vazia, jamais abandonada, deixava nos entres dos espaços e cortinas o meu cheiro, assomado ao muitos cheiros dos tantos fundidos em mim, dos tantos perpetrados, penetrados, dos meus amores e paixões. Era um alarido só, correndo na balsa de ar e vento e silêncio, silêncio, silêncio... Um fragor de inocência correndo pela casa do pornógrafo, como uma criança de cabeça dourada, nua, peste, alegrada pelos arrulhados passarinhos piolhentos do quintal. Encantado com os diamantes de poeiras, qual tumbas de um imenso organeto de catedral e apenas uma janela quebrada, dando alegria ao chão melado de indecências do dia, que ainda deixava suas gosmas tímidas pelo chão da casa.
Era dia de vibrar, de sentir cada poro, de ouvir Maria Callas, “La mama morta” avivando com uivos de pomba, de coruja, de loba traiçoeira, brega, empertigada, de nobreza fedendo sudorípara debaixo dos panos de seda. Era dia de levantar da cama com as dobras do corpo nu, cheirando a tudo que os dias reuniram. Era dia de mansuetude e verbo galopante, peito suspirando, compasso, vão. E erguendo a imensa altura deste corpo meu, sussurrando a pele do meu saco, das minhas bolas protegidas pela pele dos pêlos bravios e longos do meu escroto, eu, que jamais deixaria fugir um só aviso de desejo, pude sentir que de dentro do meu corpo, às minhas pernas, as minhas coxas, o restante inteiro dos meus membros davam bom dia. E me tocando, caminhando de entre abertos dedos marginais pelo solo da casa empoeirada, procurei da sala o carpete mais surrado, mais cheio das marcas dos pés dos visitantes, para os arreganhar num arco inteiro magistral. Quem me visse debaixo, debalde, vacilante, esfregando, com as mãos também gigantes o corpo todo, o peito, o tecido das mãos, as costas das mãos, encontrando na agilidade dos dedos, ajuntados gravetos, que mais estreitados, toras, mastros imaginários que eu chuparia com sabor e sapiência, com pedidos de clemência enviados ao oco do dentro do meu próprio mundo, num segundo, quem me visse do alto de toda esta estrutura, com certeza me diria: __ Esporra, pornógrafo! Explode porra, plasma e leite dentro da minha boca! _ eu sei que eu deitado ali, me diria! E ri, num soslaio de vento guardado no interior da boca. E como uma fruta que se esmaga até o sulco do próprio pomo, fiz de mim nesta toda boa fissura. E se eu pudesse! Ah, seu pudesse! Adoraria nesta hora célebre, divina, ser como os admiráveis contorcionistas dos circos mais pobres, ricos na sua infinita e grandiosa lona furada, suscetível de verdadeiras estrelas e também chuvas, para beber das minhas próprias águas tempestivas. Mas apenas deixei que a minha imagem refletida por mim mesmo, tão generoso, apenas fosse minha, somente meu, o espelho dessa mente amanhecida, no chão do meu carpete empoeirado, até que a fruta perdesse seu contorno, sua pressão tremulada na tensão até gozar, gozar, gozar.
Chorei, sem nenhuma melancolia, ameaçando levar à boca os meus gostos, meus constatados sabores, mas apenas, os esfreguei com carinho de benção, no bico dos meus mamilos de macho duro, dobrado agora em inspiração para dentro agraciada, depois por metade do meu rosto. E calmo, sem pressa, como um felino, tão inteiro e desconstruído, como um menino, caminhei para a minha bacia de banhos.

O pornógrafo